Quantas relações entre pai e filho são conflituosas e até mesmo agressivas? Quantas carecem de relações profundas e construtivas, de ajuda mútua e trocas amorosas? Não é preciso ir longe para ver que isto é comum, seja nas notícias ou dentro de nossa própria família.

Talvez diferisse em um passado não muito distante, onde o patriarca usava sua posição para obrigar os filhos a seguirem aquilo que lhes era determinado, ou onde os filhos se contentavam a repetir a história de seus ancestrais.

O que pode ter funcionado antes, parece não funcionar mais atualmente. Em uma geração que busca e valoriza a liberdade individual de pensamento e expressão, o conflito entre as diferentes gerações de pais e filhos é frequente. O filho do agricultor que deseja morar na cidade e não quer mais trabalhar a terra, é um dos inúmeros exemplos desse movimento.

Sempre podemos extrair muitos aprendizados de cada relação (especialmente as conflituosas). Cada pessoa tem coisas das quais nos orgulhamos e nas quais nos inspiramos. Com meu pai não é diferente. Aprendi muito sobre a vida através de seu exemplo. Nos acertos ou nos erros.

Mas, não posso negar que nossa relação nunca foi das melhores.

Hoje, como uma daquelas intuições sopradas no ouvido por um amigo invisível me surgiu na cabeça a palavra “arquétipos”. Abro uma pesquisa e leio uma definição. Lá no meio, algo me chama a atenção, como se um dedo apontasse para “o arquétipo do pai”. Uma nova pesquisa e corro os olhos pelos resultados, o terceiro parece ser o que preciso. O leio.

…”Essa imagem arquetípica pode ser vista na relação pai e filho. A oposição inconsciente à nova ordem vigente corresponde ao lado terrível do arquétipo Pai. O medo da superação pelo filho pode tomar o homem. Isso se aplica mais ao filho homem do que à filha, pois no imaginário do pai ela não é páreo para ele e leva a projeção de sua Anima.

Um pai pode impedir o desenvolvimento do filho, planejando sua vida a ponto dele não conseguir pensar em nada a não ser o que o pai planejou a ele.

Para mudar isso é necessário, consciência e amor.

Talvez por isso tantos homens hoje não se sintam amados por seus pais, gerando mágoa e perpetuando a neurose com seus próprios filhos. Eles podem encontrar outros “pais”, uma figura amorosa de um mentor, por exemplo.

O filho o lembra de uma juventude e jovialidade que não voltam mais e uma lei nova que pode suplantá-lo.

No entanto, esse pai como função estruturante move o filho em direção ao seu desenvolvimento e ele pode incorporar e viver outro arquétipo: o do herói.” Fonte

Teria o pai medo de ser superado de alguma forma pelo próprio filho? O Rei tem medo de ser destronado por seu príncipe herdeiro? Mesmo isso não sendo verdade, e que o príncipe em seu atual conhecimento e visão quer ajudar o rei a se tornar maior, expandindo seus horizontes e seus domínios com as novidades de sua geração. Um mecanismo inconsciente, mas sempre presente que não é outra coisa se não resultado da expressão do pai no mundo externo, daquilo que preenche seu mundo interno?

Esta natureza humana é também capturada pelos mitos. “Urano tenta impedir que um de seus filhos o substitua e assim não permite que saiam do ventre materno. Zeus também repete esse feito dos ancestrais: ele engole sua esposa Metis (grávida de gêmeos) com medo de uma profecia que previu que um descendente implantaria uma nova ordem. E assim impede a renovação.”

Talvez o pai tenha de alguma forma medo do filho por este estar fazendo coisas que ele não fez. Seja por que lhe faltou oportunidade, iniciativa, curiosidade ou interesse. Talvez apenas não façam parte do caminho dele mesmo, e assim o filho que faz diferente, não é visto como um reflexo do qual o pai tem orgulho, e sim como uma ameaça.

Não há identificação, muito pelo contrário.

O filho não seguiu a profissão, as crenças, os ideais, costumes e não mora na casa do pai. O pai seguiu a profissão do avô, mora no lugar que o avô deu ao pai, repete as crenças e costumes tradicionais da família.

O filho não é um herdeiro digno, é um estranho no ninho.

Quando o filho questiona e estimula o pai, este se fecha e reage, apelando para o descrédito, a chacota, as agressões veladas na forma de desmerecimento das ideias, ideais e expressões do filho. O estilo de vida do filho não causa orgulho para o pai. O filho gostaria que o pai fosse um pouco mais como ele, e vice-versa.

A vida do filho parece sem futuro para o pai. A vida do pai parece dura e sofrida para o filho.

O pai então externa os aspectos mais sombrios de seus próprios medos, decepções e limitações. Que estão velados sobre o peso de uma vida, na qual talvez tenha deixado de querer mais, se contentando com o que já têm. Em vez de apoiar e estimular, diminui e agride. O filho tenta ser o herói, que pensa que pode ajudar o pai de alguma maneira. Já o pai não admite que a renovação é necessária e que lhe fará bem.

O filho vê amor na sua atitude inútil de herói. O pai vê desafio e soberba na expressão tímida do amor do filho.

Talvez este filho herói nunca ouça seu pai dizendo: “Este é o meu filho! Eu dei a ele a vida, a educação e as oportunidades. Agora ele, com seus próprios méritos, está construindo seu caminho e chegando a lugares distantes, por isso me orgulho dele!”.

Um pai que trilha o caminho do autoconhecimento e do amor é capaz disso. Para expressar tal sentimento terá que primeiro ter olhado para dentro e aprendido a lidar com o que lá existe. Isto não é um processo fácil.

Como bem foi dito a mim por um de meus mestres nesta vida: “Em sua família, você é uma estátua dourada, e estátuas não falam”.

Se a estátua falar, ela será uma aberração, algo a ser temido e atacado. A única coisa que a estátua pode fazer é ser, em seu brilho dourado, imóvel e mudo. Apenas aqueles que a olharem com amor no coração, poderão admirar o seu brilho.

Enquanto isso, sigo meu caminho na luta diária para incorporar a verdade de que cada um tem seu processo, e que não é possível interferir no de outra pessoa sem que esta tenha solicitado ajuda. Nem que seja pai ou mãe.

A plena aceitação do outro com seus vícios e virtudes, qualidades e defeitos, é um dos únicos, se não o único caminho possível para melhorar esta e qualquer outra relação.

Diogo Luiz Miranda

Diogo Luiz Miranda

Eu sou um agente da mudança. Meu método é lhe oferecer algo sobre o que pensar. Minha missão é incentivar a busca pelo autoconhecimento e pela espiritualidade como ferramentas de desenvolvimento pessoal, pois através de nosso crescimento enquanto indivíduos, podemos transformar o mundo.

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