Pense por um momento no dia da sua morte. Os olhos se fecham, tudo fica escuro, no suspiro da última expiração a respiração cessa. O coração pulsa sua última batida de sua ininterrupta missão, e o cérebro gradualmente vai se desligando. Por um breve período você está inconsciente, nada mais existe. Os laços com que a respiração lhe prendia ao corpo se desfazem, e um momento depois você inspira profundamente, como alguém que retorna de um profundo mergulho.

Você respira, mas o ar não é mais o mesmo. Abre os olhos, mas a visão é turva, sonolenta. Gradualmente vai se recuperando e recobrando a consciência. Olha ao redor e enxerga um corpo, estremesse ao perceber ser o que era seu. Esta máquina biológica incrível que lhe serviu de receptáculo durante mais este mergulho. Se dá conta de um fato inevitável, você morreu.

Liberto do peso da matéria e na presença de seu corpo sem vida, você começa a ser invadido pelas memórias da jornada que acabou de se encerrar. A mais recente se apresenta imediatamente, é o momento da sua morte. Como você morreu?  Tranquilo, relaxado, satisfeito, em paz e com um sorriso no rosto? Ou violentamente em um acidente por se colocar em riscos desnecessários, inconsequência ou adrenalina? Inutilmente em uma briga por ser agressivo, violento e não se controlar? Seu corpo está em um quarto bonito onde flores e bela música lhe preparam o re-nascimento, ou está sagrando e dilacerado em meio a ferragens?

Olha ao redor e observa quem está lá com você. Está cercado de pessoas queridas, relembrando quem você foi, o quanto fez por elas, as ajudou, cuidou e amou. As lágrimas que elas derramam são em antecipação a saudade que sua ausência fará? Ou está sozinho e abandonado, por ser uma pessoa a quem outros evitavam? Elas estão agradecendo pela oportunidade de ter compartilhado algum tempo com você, ou por terem se livrado de um peso? No retorno a casa, será recebido por um grande número de amados que vem para lhe fortalecer e se regozijar com seu retorno, ou por um enxame de desafetos que anseiam por lhe devolver o mal que lhes fez?

Começa então em sua consciência um filme sobre sua longa ou breve história. Lembra de tudo o que amou, pessoas, animais, lugares, a natureza, viagens, experiências, e sorri ao perceber que as coisas mais valiosas seguem com você, em seu coração. Ou lembrará do dinheiro acumulado no banco, do carro na garagem, da ganância, de todo o esforço para acumular, e percebe incrédulo que agora não tem nada? Lembra de tudo que bom que fez e da beleza que criou, ou de tudo que usou, destruiu e desperdiçou?

Lembra de uma longa lista de pessoas que foram únicas e especiais: pais, ancestrais, amores, cônjuges, amigos, mestres e os motivos porquê amou a cada um deles. Ou de quem prejudicou, odiou, usou, ficou devendo? Quem estará no seu coração para guiar os próximos passos?

Lembra com gratidão de tantos momentos maravilhosas que teve a oportunidade de viver, e se sente satisfeito por ter sempre seguido seu coração. Ou se arrependerá de tudo que não fez por medo da opinião dos outros ou por estar ocupado de mais ganhando dinheiro e em busca de prazeres efêmeros? Se orgulhará de ter sido uma pessoa única, verdadeira, aberta, honesta, sensata, corajosa e de ter feito de sua vida uma obra de arte. Ou se envergonhará de ter sido apenas mais um em meio a manada, cópia barata, falso, mentiroso, mesquinho, medroso.

Percebe então que a mudança por que passou, foi apenas de uma vida para outra vida, mas que você continua o mesmo. Ainda se vê com a mesma aparência, se apresenta com as mesmas roupas, sente necessidade de respirar mesmo não dependendo mais de oxigênio. Percebe que agora, sem o peso do corpo, tudo que você é, e que habita seu coração e mente está amplificado. As emoções jorram intensamente suas águas e os pensamentos fazem você sentir profundamente em todo o ser sua afiada lâmina.

Será inundado por amor, harmonia, paz, tranquilidade, sendo elevado e guiado a novas alturas, lugares luminosos, livre e pleno; para seguir seu caminho e escolher suas novas experiências? Ou tomado por ódio, tristeza, conflito, dor e pela ânsia dos vícios que não pode mais suprir? Arrastado para os lugares baixos e escuros, acorrentado em um mar de lama por longos períodos para escoar toda a densidade que produziu para si, até que pela misericórdia seja obrigado a renascer na matéria para mais um desafio, em vez de para mais uma bela aventura. Será agora um escravo de suas próprias fraquezas, ou o senhor e mestre de si e de seu destino?

Ao fim daquele rápido filme, apenas uma pergunta restará a ser respondida. Não com palavras, mas com um sentimento profundo no coração e na alma: valeu a pena?

As lágrimas que cairão de seus olhos serão de felicidade e gratidão, ou de tristeza e arrependimento?

Talvez você leia isto agora, e em poucos minutos as distrações da vida apagarão estas palavras de sua memória. Quiçá pensa nisso ainda hoje, amanhã, semana que vem, ano que vem. Talvez se lembre disso apenas quando olhar seu corpo sem vida. Lembrará então que você sabia, que sempre soube, mas que talvez tenha ignorado.

O que fará a respeito?

Viva uma vida da qual se orgulhará no dia da sua morte.

Image by Jérémie Perron from Pixabay

Diogo Luiz Miranda

Diogo Luiz Miranda

Eu sou um agente da mudança. Meu método é lhe oferecer algo sobre o que pensar. Minha missão é incentivar a busca pelo autoconhecimento e pela espiritualidade como ferramentas de desenvolvimento pessoal, pois através de nosso crescimento enquanto indivíduos, podemos transformar o mundo.

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